quinta-feira, dezembro 15, 2005

As elites


JVC publicou mais um dos seus artigos acutilantes. Desta vez é sobre a massificação e as elites, sobre o ensino superior e o politécnico. Intitulado "Universidade para todos?" defende, da forma bem fundamentada a que o autor já nos habituou, que o ensino superior precisa de se expandir em Portugal, de facto, mas a nível do ensino politécnico. E faz uma boa argumentação sobre a separação entre os dois subsistemas, com uma tipologia muito clara, fazendo-me ver que as minhas dúvidas sobre a separação entre os dois tipos de ensino têm muito a ver com as derivas que se têm verificado de um e de outro lado.

Tipo I
Tipo II
Orientação para a investigação Orientação para a aplicação
Modo de pensar científico Modo de pensar prático
Atitude pluridisciplinar Atitude monodisciplinar
Supervisão e gestão complexas Supervisão e gestão simples
Relação secundária com a produção Relação essencial com a produção
Polivalência Especialização
Docentes académicos Docentes profissionais

PG em ambiente de investigação

PG em ambiente produtivo


Como bónus, descobri um texto de Bento de Jesus Caraça, também sobre a questão das elites, retirado de um célebre texto, "A Cultura Integral do Indivíduo". Muito interessante a definição ali apresentada de uma pessoa culta:

1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;

2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;

3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior preocupação máxima e fim último da vida.
E retorno assim à minha preocupação: com todo o ênfase em competências e em técnicas pedagógicas, estaremos a desvirtuar o ensino universitário?

segunda-feira, dezembro 12, 2005

O importante é a compreensão

Partindo do livro de Paul Ramsden "Learning to teach in higher education" estou a tomar contacto com uma teia de conceitos e experiências que têm como centro a idéia de que o essencial do ensino é permitir que o estudante altere a compreensão que tem do mundo à sua volta, incluindo os conceitos e métodos da disciplina ou profissão que está a estudar.

(Este artigo de Ramsden dá um bom resumo da sua idéia central: a de que temos que aprender com os estudantes as melhores formas de os ensinar).

Deixo aqui dois nós dessa teia.

O primeiro é um desenvolvimento do próprio conceito de compreensão, e da forma como deve ser estruturado um ensino dirigido a modificar a compreensão dos estudantes: Teaching for Understanding.

O segundo é o conceito de "Effective Teaching", conforme explanado por exemplo neste site . Os seus Learning, Teaching and Assessment (LTA) Principles são tão lógicos que choca a maneira como são rotineiramente ignorados.

Um bónus extra é este resumo dos Seven Principles for Good Practice in Undergraduate Education.

sábado, dezembro 10, 2005

Recursos Pedagógicos






Numa altura em que se preparam reorganizações de cursos e mudanças de paradigmas de ensino-aprendizagem, sítios como estes são um recurso poderoso- sobretudo se se quer (como eu quero!) ir além da cosmética.
Obrigado, LN.

domingo, novembro 27, 2005

Técnicas pedagógicas


De facto as pessoas habituam-se a tudo. Até a ver os seus sonhos morrerem debaixo do peso dos testes, exames, prepotências, decoranços e cábulas. Até não restar mais que um diploma...

quinta-feira, novembro 24, 2005

Instructional Framework: the online guide


Um site tão bem estruturado, com tanta informação útil, merece bem mais do que ficar enterrado no caos da lista de favoritos...

segunda-feira, novembro 21, 2005

Madeira

A Universidade da Madeira avança em força para Bolonha. E nós?

Do Orçamento de Estado para 2006

[Extractos do Orçamento de Estado para 2006. Saliento a ênfase nas competências e na qualidade]

Ensino Superior

O principal objectivo do Governo para o Ensino Superior durante a presente legislatura respeita à necessidade urgente de garantir a qualificação das novas gerações para as exigências do espaço europeu, garantindo a plena integração e qualificação das instituições de ensino superior nacionais no espaço europeu de ensino superior.

Este desafio passa por assegurar a transição de um sistema de ensino baseado na ideia da transmissão de conhecimentos para um sistema baseado no desenvolvimento de competências. Esta é uma questão crítica central em toda a Europa e com particular expressão em Portugal, dados os altíssimos valores de abandono e insucesso que se verificam no nosso País e o peso conservador de modelos de ensino retórico e passivo.

Mas os desafios para Portugal incluem ainda a abertura no acesso ao ensino superior e a criação de condições para que todos os cidadãos possam ter acesso à aprendizagem ao longo da vida, assim como o desenvolvimento do papel das instituições de ensino superior neste processo.

Neste contexto, os principais objectivos para esta legislatura que orientaram a concepção do orçamento de estado para o ensino superior para 2006 incluem:

  • Concretizar o processo europeu de Bolonha de reforma do ensino superior, oportunidade para incentivar a frequência do ensino superior, melhorar a qualidade e a relevância das formações oferecidas, fomentar a mobilidade e a internacionalização;

  • Reforçar um sistema de ensino superior com instituições autónomas, facilitando a reforma do sistema de governo dessas instituições, de modo a desenvolver uma cultura de prestação de contas e flexibilizar as formas de organização e gestão, promovendo a desgovernamentalização do sistema e valorizando parcerias entre instituições nacionais e estrangeiras;

  • Promover a qualidade do sistema, valorizando a necessidade de actuar para públicos diversificados, o que requer estruturar um sistema de garantia de qualidade reconhecido internacionalmente, desenvolvendo o actual modelo de avaliação e financiamento e desenvolvendo um sistema nacional de acreditação;

  • Promover a igualdade de oportunidades no acesso ao ensino superior, melhorando os níveis de frequência e conclusão dos cursos superiores, atraindo novos públicos, numa lógica de aprendizagem ao longo de toda a vida e melhorando a acção social escolar.

terça-feira, novembro 15, 2005

O rol, versão preliminar

De acordo com as exigências do DL 42/2005 a UAç deve

  • até final de Maio 2005

    • aprovar um regulamento de aplicação do sistema de créditos curriculares aos cursos conferentes de grau. (É necessário fazê-lo também, mas sem data limite, para cursos não conferentes de grau e para casos especiais, não organizados em anos, semestres ou trimestres lectivos).

  • "a partir de 2005" (segundo os compromissos assumidos por Portugal no chamado Comunicado de Berlim)

    • reestruturar os cursos, segundo as normas do Despacho 10543/2005 (2ª série), de 11 de Maio (o formulário pode ser descarregado na Divisão do Registo da DGES).

    • aplicar a escala europeia de comparabilidade de classificações.

    • emitir um boletim de registo académico aos alunos em mobilidade.

    • elaborar um guia informativo.

    • emitir um suplemento ao diploma (v. Comissão Europeia e NARIC Portugal ).

Subjacente ao Processo de Bolonha, no entanto, está uma alteração profunda de muitos dos paradigmas actuais, bem descrita neste artigo do Prof. João Vasconcelos Costa. É essa alteração que dá sentido a todas as obrigações acima elencadas. Assim, advoga-se

  • a criação de um perfil de competências transversais da UAç e, com base neste, de perfis de competências específicos para cada curso.
    Ver, neste contexto, os descritores gerais e específicos produzidos no âmbito da Joint Quality Initiative, os resultantes do projecto Tuning, os do SEEC (resumidos aqui por J. Moon) e os da Quality Assurance Agency (gerais e específicos).
    De interesse é também toda a discussão promovida pela ministra Maria da Graça Carvalho.

  • a adopção de métodos de ensino baseados no aluno, como a aprendizagem baseada em problemas.

sábado, novembro 12, 2005

A avaliação das universidades

Na conclusão de uma crítica arrasadora à proposta de despacho de Mariano Gago relativa a uma megalónoma avaliação das universidades portuguesas, João Vasconcelos Costa define aquilo que considera as questões urgentes a que o MCES tem que responder:
  1. Conjugação da avaliação dos cursos, da avaliação científica e da avaliação da governação e gestão, começando logo a nível departamental. Resultado em classificações, com efeitos no financiamento.
  2. Reforma urgente da lei da autonomia, permitindo, sem imposições, a adopção de modelos modernos de governação, com efeitos também para a valoração no financiamento.
  3. Definição urgente de quadros nacionais de qualificações, por área disciplinar, - uma prioridade fixada na reunião de Bergen - sem cuja referência a adaptação a Bolonha vai ser, provavelmente, um processo inconsequente. São também muito importantes para a definição de novos guiões de avaliação programático (dos cursos).
  4. Estatuto da carreira docente que diferencie claramente os professores em termos de mérito e que estabeleça um sistema de classificação individual. Sem isto, é entregar tudo o resto à decisão dos medíocres.
Eu não diria melhor (obviamente). Enquanto a universidade não puder escolher o seu modelo de governação, como pode mudar? Enquanto o mérito não for recompensado, quem se levantará para trabalhar? Enquanto não se definirem os quadros de qualificações (será a mesma coisa que os perfis de competências?...) continuar-se-á com a avaliação tosca e tonta das notas e do "sucesso escolar". Reflexos no financiamento? Sim, senhor ministro, mas só quando o resto estiver assegurado...

terça-feira, novembro 01, 2005

Credencialismo e competências


Estou neste momento empenhado em que a UAç adopte um perfil de competências transversal e perfis específicos para cada curso, para alinhar com o que se faz noutros países, nomeadamente no Reino Unido. Esta busca da normalização da "produção" universitária é importante sem dúvida na melhoria da qualidade, ou pelo menos na respectiva avaliação. E é básico se a grande preocupação passa a ser a empregabilidade.



Mas fico sempre com a sensação que, neste processo, se está a esquecer ou a desvalorizar um lado... como direi? mais elevado da formação universitária. Onde cabe o saber pelo saber, a busca do conhecimento enquanto estratégia de valorização pessoal?

Uma passagem pela página de Frank Furedi levou-me a reflectir de novo sobre estas questões. Em causa estão dois artigos, No primeiro, "A degree is now a rite of passage", Furedi reflecte directamente sobre as questões da massificação do ensino superior. No segundo, "I don't want to meet the parents", discorre sobre um fenómeno a que também já se assiste em Portugal: a infantilização dos estudantes universitários. De algum modo, acho que as duas coisas estão ligadas...